Pequenos Príncipes

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Aprendi a contar causos com a minha avó Pretinha. Eram contos de assombração, proezas e encantamentos que pareciam muito mais reais do que os que líamos nos livros. As bruxas eram velhas de nossa família e João e Maria não voltaram para casa, mas aprenderam a se virar sozinhos na floresta, onde passaram a viver com seus protetores “Rompe Ferro” e “Corta Vento”, os cães que saltaram dos seios da feiticeira enquanto ela ardia na grande fornalha que costumava acender para assar crianças perdidas.

Desse gosto pelo mágico veio a paixão por rádios comunitárias e, com ela, os meninos e meninas nas ruas do centro da cidade de Porto Alegre – nomeada a capital da literatura pela tradicional Feira do Livro. Durante o evento, a Praça da Alfândega fervilha de gente absorta pela cultura que o espaço respira. O povo fica lindo, desfilando pelas alamedas de bancas enfileiradas e bordadas com todas as cores e livros do mundo! A praça de alimentação, nem se fala: é um camarote para assistir ao espetáculo e, de quebra, tomar um refrigerante com os amigos.

– Tem uma moeda aí tia? – Não tenho nada, não… (olho de estranhamento da tia…). – Então me dá um gole do teu refri? A “tia”, sentada logo à minha frente, estende a mão resoluta e entrega ao menino a latinha, num gesto que interpretei como “pega e vai andando”. Olho ao meu redor: um garçom observa o acontecido. Percebo o movimento de outros meninos que se arriscam a avançar sobre os canteiros, único lugar disponível para um acesso furtivo ao local. O menino com a latinha caminha ao encontro dos demais. Menos de dez minutos depois, eram quatro os meninos que circulavam por ali.
Aguço a minha atenção. Agora observo os meninos e os olhos do garçom. Ele visivelmente incomodado com a cena, e os meninos distraídos entre brincadeiras, pedidos nas mesas e livros.

Que será que o garçom vai fazer? Penso alto com o espírito inquieto. Se agarrar os meninos vou pra cima dele com o Estatuto na mão! – anuncio a uma amiga que está comigo. O garçom some, reaparecendo acompanhado de um segurança contratado pela Feira. O segurança avança na direção dos meninos, eles saem correndo por entre as bancas e as pessoas na praça, o homem corre no encalço deles e eu despenco logo atrás. Alguns metros adiante percebo que os meninos tomam uma vantagem considerável e que o segurança para. Quando ele cruza comigo, faço a abordagem típica:

– Eu gostaria de saber o que os guris fizeram?

– Eles estavam perturbando as pessoas da Feira – respondeu com rispidez.

– Mas o Senhor não sabe que eles têm tanto direito de circular nesta praça como nós dois?

– Não gostou, leva pra casa, dona! – disse debochando, e seguiu andando.
Fiquei parada ali mesmo enquanto ele se afastava. A provocação serviu e eu já sabia o que fazer.

No outro dia bem cedo, fui à Administração da Feira do Livro, pronta para uma boa briga, pois ainda não havia conseguido digerir o insulto do dia anterior. Uma pequena espera na recepção e surge uma voz marcante às minhas costas. Dona Eva se despedia alegremente de alguém, um sorriso que desarmou meu espírito.

Olá, sou Eva, sobre o que seria? Relatei à dona Eva o ocorrido da noite anterior acrescentando que era professora em uma escola municipal que recebia meninos e meninas em situação de rua, mas naquele momento estava ali apenas como cidadã de Porto Alegre.

Logo no início da conversa, um pouco de desabafo: disse a ela que não entendia como a Feira do Livro, na sua importância cultural e de lazer, não cumpria igualmente com o seu papel para aquelas crianças; falei sobre a falta de atenção e descumprimento do ECA e como havia percebido a alegria delas quando raramente tomavam um livro nas mãos sem serem confundidas com “ladrões”. – Ladrões de que, dona Eva, da cultura? Eu procurava conter a emoção, mas disfarçava mal a aspereza perceptível no meu tom de voz. Dona Eva, porém, ouvia-me com tranquilidade e atenção. Primeiramente séria, depois com um largo sorriso. Estaria levando a sério o assunto? E se eu estivesse atrapalhando seus negócios? Na dúvida, arrisquei: – Faço rádio comunitária e adoro contar histórias… Quem sabe se…

Uma hora de conversa e saímos da sala, emocionadas e dispostas a fazer uma Feira diferente, mesmo que, como disse ela, com resistência de alguns.

Com data e hora marcadas voltei à Praça da Alfândega para o primeiro programa de rádio “ao vivo” com a meninada. O pessoal da RDC FM foi instalado em um estande meio improvisado. Monta transmissor, testa equipamentos, sobe antena, puxa fio.
– Rádio Pirata? – perguntavam os curiosos.

– Que nada, Rádio Itinerante – respondia meu compadre Zeca, acompanhado de Seu Carlinhos, nosso Professor Pardal. – E feita por esta meninada aqui, ó, dizia eu, com umas dez caras sorridentes à volta.

Naquela tarde, lembro-me bem, chovia cântaros e nos amontoávamos debaixo da lona.

– Quem é aquela tia? – perguntava um.

– Corre atrás que é a escritora tal, dizia outro…

– E aquele é senador aqui do Estado!

– É quem?

E lá iam eles, correndo… corriam… só que desta vez, não corriam do segurança nem do garçom nem atrás da moeda da tia, corriam porque eram “os repórteres da rádio” na Feira!

Em 10 anos a experiência amadureceu, garantiu o ECA e conquistou o coração da Feira do Livro de Porto Alegre. O espaço ganhou até nome, ASTEROIDE, aquele mesmo de onde veio o Príncipe que adorava viajar mundos ouvindo histórias.

Continuamos nos reunindo a cada final de outubro para fazer rádio e contar histórias. O compadre Zeca, o “Professor Pardal”, o “Ferrão”, como é conhecido um dos meninos que começou conosco, hoje com 25 anos, eu, a gurizada que sempre aparece e, é claro, a dona Eva. Muitos colaboradores já se juntaram ao nosso grupo, novos meninos e meninas, várias ideias e outros causos que se multiplicam. Mas os melhores mesmo são aqueles que minha avó Pretinha contava, os mesmos que divido com esses pequenos príncipes todos os anos na Feira do Livro.

Denise Soares Flores é professora alfabetizadora da rede municipal de ensino em Porto Alegre, tem desenvolvido vários trabalhos de destaque envolvendo cultura e crianças e adolescentes em situação de rua e de mobilização na defesa de direitos humanos, por meio de rádios comunitárias.

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